Notícias Magazine - Claudia Moura
"... Entre outras coisas ... fumar mata. E nós temos tanto medo de morrer que nos agarramos a mais um cigarro. Cheira mal e parece que incomoda mesmo os outros. E isso enerva-nos de tal maneira que nos obriga a fumar mais um. Queima-nos os dedos. Enegrece-nos os dentes, tolhe-nos os movimentos e inibe qualquer projecto que se pareça com ter que mexer. Fumamos para pensar nisso. Se bem que fumar reduz o fornecimento de oxigénio ao cérebro e perturba a actividade de pensar. Mesmo assim, fumamos para nos ajudar a criar. Fumamos pelos prazeres e por causa dos desprazeres. E se por acaso nos faltarem argumentos, acendemos mais um cigarro. Como se cada cigarro nos pudesse salvar de qualquer coisa que está sempre na iminência de acontecer.
Se fumar é uma ameaça de morte, então por que não paramos de fumar? Apenas porque nos fizeram uma «acabadíssima» lavagem cerebral, defende uma das novas terapias de desintoxicação agora ao dispor em Portugal. A primeira vez que ouvi falar sobre este método não me souberam dizer nem o nome nem do que constava, apenas que um grupo de fumadores se reunia durante uma tarde com a holandesa que o trouxe para Portugal e que saíam de lá sem fumar. Para sempre e milagrosamente. E ao que parece a dita senhora não utilizava o berbequim nos seus cérebros para conseguir tão prodigiosos efeitos.
Quando consegui descobrir do que se tratava - o método que um londrino de nome Allen Carr apelidou de Easyway e que, depois de ter achado que tinha descoberto a pólvora, resolveu partilhar para ajudar pobres adictos como nós - ainda fiquei mais desconfiada. Diz ele, taxativamente, que não precisamos de usar a força de vontade para parar de fumar e que simplesmente sairemos de lá sem nunca mais desejar um cigarro, nem sequer de vez em quando...
Como é que o faz? Em sessões terapêuticas dirigidas por monitores formados pelo próprio. Tarefa que, por enquanto, em Portugal cabe apenas a Ria Slof Monteiro (holandesa já com vinte anos de aculturação portuguesa) e, obviamente, ex-fumadora inveterada que se rendeu às maravilhas do oxigénio e que, hoje, repete o slogan Easyway com tal convicção que somos obrigados a duvidar do nosso próprio cepticismo: « É fácil parar de fumar... se souberes como fazê-lo!» E Ria vai explicar-nos. Tintim-por-tintim, vai esmiuçar cada uma das razões, das mais claras às mais turvas, por que fumamos um cigarro... e por que afinal, podíamos tão bem não fumar.
Lavaram-nos o cérebro com amaciador
Porto, sábado, uma e meia da tarde, eu e mais cinco homens, todos industriais do Norte, entramos na sala do Easyway. Um dos meus novos colegas - talvez o mais esperançado e também o mais perplexo porque a sua mãe, fumadora empedernida de muitas décadas, deixou de fumar depois de ter visitado Ria - traz estampada na cara uma expressão de surpresa. Assinam-se os «contratos de garantia» que prometem a devolução do dinheiro investido em caso de decepção e cada um preenche a ficha pessoal: fumador desde que idade, número e tipo de tentativas para parar de fumar, dose diária, etc. Conclusão: todos nós fumadores de calibre... à espera da revelação.
Durante uma comprida tarde em que fomos fumando tudo o que nos apetecia, bebendo cafezinhos, comendo bolachas e fazendo uns intervalos para desentorpecer as pernas, Ria tentou alcançar aquilo a que se propôs: fazer com que saíssemos dali sem vontade de fumar um cigarro e sem dissabores por causa disso. De acordo com a sua convicção, o problema de deixar de fumar não está no sofrimento físico daí resultante, mas sim no sofrimento mental causado pela dita lavagem cerebral que, desde pequeninos, nos fez encarar o cigarro como algo de vital para a nossa existência. E a sua falta como uma perda tão monstruosa como se de um membro do nosso corpo ou de um familiar se tratasse. «Desconstruindo» um a um todos os mitos e ilusões que associamos ao cigarro através dessa lavagem cerebral, o tabaco torna-se, de repente, uma grande desilusão e deixá-lo não constitui mais uma perda ou um abandono, mas sim um grande alívio.
Resistir aos apelos torna-se então um processo puramente racional. Cada vez que o cão de Pavlov nos ladra ao cérebro exigindo mais nicotina (o que dura poucos dias, porque a dependência física passa realmente depressa), ou cada vez que a sua limitada «programação» nos diz que precisa de um cigarro para se concentrar, relaxar, para não se sentir tão miseravelmente só para controlar a fúria, melhorar o fantástico mergulho no mar, apurar o sabor do café, coroar um momento de êxtase, etc, o nosso «cérebro recuperado» já pode responder:« não preciso de fumar para nada, nunca foi o cigarro que me ajudou a coisíssima absolutamente nenhuma!»
E isto é um processo radicalmente diferente daquele em que se corta o tabaco porque «tem de ser», reunindo um ror de «força de vontade» e ficando, mesmo assim, a olhar qual cão escorraçado para cada felizardo que nos passa à frente de cigarro na mão. Deixar de fumar por força de vontade é muito louvável mas não serve de nada, pelo menos a longo prazo, porque um dia a vontade pode falhar. Deixar de fumar sim, mas só por puro convencimento, repete Ria, insistindo com uma grande dose de segurança, que é aquilo que nos vai acontecer a nós.
E a nossa «contralavagem cerebral» prossegue paulatinamente horas e horas a fio. Dá prazer? É sofisticado? Representa a força e o poder? Ajuda a combater o stress? Ria desmonta um a um os nossos mitos, com exemplo de um património cultural que nos é comum a todos: o cigarro que aparece sempre associado ao sexo como se o prazer precisasse de um cigarro para acontecer, o cigarro que nos reconcilia com toda uma vida, que nos reforça a coragem e até o condenado à morte pede no seu último desejo, o cigarro que nos dá autoconfiança e que revela todo o Humphrey Bogart e toda a Mata Hari que há dentro de cada um de nós, e por aí fora, demonstrando que o ganho não mora propriamente no cigarro mas ao lado.
Ou melhor, que até há um certo prazer em fumar, parecido com o de chegar a casa e tirar finalmente uns sapatos novos que estão apertadíssimos, ou de se calarem misericordiosamente as obras que estão a fazer no andar de cima. Um prazer ou apenas o fim da tortura causada pelo processo de auto-insatisfação que a própria nicotina criou e que não nos estaria sempre a martirizar se nunca tivéssemos começado a ser fumadores? Alguém, no seu juízo perfeito, teria escolhido este prazer se soubesse que iria passar a maior parte da sua vida em desprazer, sempre com medo que se lhe acabem os cigarros, que apareça alguém a dizer que não se pode fumar ou que nos convidem para umas férias do outro lado do oceano obrigando-nos ao suplício de uma viagem de avião?
Requiem por um cigarro
Passadas cerca de sete horas a revisitar e clarificar as mais improváveis situações da vida de um fumador, Ria perguntou se estávamos preparados para fumar o último cigarro. Fumei-o, «a fazer figas» como é óbvio, mas também com a certeza de não poder jurar nada de eterno sobre uma das minhas mais antigas «ralações». Mesmo assim, peguei no pacote de Samson, nos filtros, nas mortalhas escolhidas a dedo com a gramagem e o tratamento perfeitos e no isqueiro Bic, objectos do meu mais fanático culto, e deitei-os para aquela fogueira simbólica onde jaziam todos os maços de todos os fumadores que por ali já passaram.
A luz diminui na sala, refastelamo-nos ainda melhor nos cadeirões, fechámos os olhos e começou aquilo que alguns diziam ser hipnotismo, a «chave de todo o mistério» e que para mim não passou da fase de recapitulação ou consolidação de ideias - nós de olhos fechados e a monitora a repetir umas quantas conclusões. Por exemplo, que deixar de fumar não é sacrifício nenhum, que vai ser mas é uma grande libertação,...
Na manhã
seguinte fui mais cedo para a estação de comboios na tentativa
de trocar a reserva para um lugar de não fumador. O caixa disse que era
impossível. Fiz-me de Lucas, expliquei que ao comprar o bilhete no multibanco
me tinha enganado e acabara num lugar de fumadores, Como se alguma vez me pudesse
ter enganado no quer que fosse que dissesse respeito a poder ou não fumar...
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Em que é que ficamos?
Afinal o que é preciso para deixarmos de fumar? Sobre os mecanismos de dependência muito se tem estudado e até hoje, ninguém poderá dizer que isolou o gene ou a hormona que tudo desencadeia, ou que descobriu a cura universal que virá resolver os dramas de todas as toxicodependências. Mas uma coisa é certa: para a maior parte dos fumadores, deixar de fumar - pelo menos definitivamente - é tarefa hérculea. Por isso, aceitam-se e agradecem-se ajudas honestas. Quanto à «escolha acertada», infelizmente dependências não são frigoríficos, e caberá a cada um de nós decidir e apostar.
Mas a propósito, e bem ou mal, este é o meu primeiro texto que escrevo em 24 anos sem me afogar em cigarros. E eu que não acreditava em milagres!"