Artigo 11-10-2006 de Cristina Costa e Silva, Jornalista do Jornal da Madeira

Há um ano, depois de ter tentado vários métodos, um insecto picou-me.. e deixei de fumar.

Não sei se foi bem assim, mas reconheço que o insecto deverá ser o único “culpado” por eu estar, há um ano, sem tocar num cigarro. Depois de seis horas confortavelmente sentada numa cadeira de braços, de pés em cimo dum banquinho, café e cigarros à disposição e um cinzeiro cheio das minhas beatas numa pequena mesa, só pode ter sido um insecto a picar-me porque me levantei, vinte cigarros depois e…. até hoje não fumo. Passou-se um ano desde que nesse dia 29 de Setembro de 2005, no Porto, acendi o Último cigarro. E até hoje não senti falta desse gesto, simplesmente porque percebi porque fumava. E foi mais fácil deixar…

Até hoje não percebi bem o que aconteceu, mas a verdade é que também não é muito importante, agora, perceber como deixei de fumar.
O que é um facto é que deixei de fumar de uma hora para outra, sem electro-estimulação nas orelhas e no nariz, sem gotas nos filtros dos cigarros, sem pastilhas de nicotina e sem adesivos ou afins.
Cá para nós, que ninguém nos lê, depois de várias tentativas, com vários tratamentos, para abandonar o que eu pensava ser um vício, foi estranha a forma como me deixei convencer pelos argumentos de amigos que o tinham feito e que estavam, há mais de um ano, felizes por serem não-fumadores.
Havia apenas um pequeno pormenor a ter em conta: teria de o fazer no Porto.
Aproveitando as férias, lá me decidi. Mas sempre duvidando de quem me tinha indicado o tratamento e ainda na véspera, liguei para saber se continuavam, efectivamente, sem fumar.

Quase como uma seita

O ritual seguido tem ar de seita. Com os telemóveis desligados, o contacto com o exterior faz-se apenas por uma janela que dá para as traseiras do prédio e isso enquanto estamos na área da sala que é contígua àquela onde é feito o “curso”. Ria, a holandesa simpática com quem falara ao telefone, abrira a porta aos onze “fiéis” dessa tarde, um a um, com um sorriso de boas vindas. Só ela sabia, naquele momento, que todos nós sairíamos dali sem vontade de continuar na cortina de fumo em que nos envolvêramos anos e anos, uns mais do que outros.
Ofereceu-nos café e perguntou se queríamos alguma coisa para comer. O seu objectivo inicial era o de nos colocar à vontade e à medida que eu olhava à volta via o ar pouco crédulo com que os outros olhavam uns para outros.

Os onze daquela tarde

Dois jovens casais, dois outros rapazes, um deles músico, duas raparigas, uma delas estudante, uma senhora que parecia acabadinha de chegar das lojas mais caras de Cascais, daquelas que deviam ter levado para o Porto motorista e bagageiro, um senhor com 75 anos cujas três filhas tinham deixado de fumar com aquele método e eu, a madeirense com dificuldades em fazer passar o seu sotaque ilhéu. Garanto-vos que foi mais fácil deixar de fumar do que me entender com os meus “colegas”, durante aquela tarde de 29 de Setembro.
Ria dá algumas explicações sobre o que vai acontecer e dá a primeira instrução das muitas dessa tarde. A partir dessa hora, não será feito qualquer contacto com ninguém e aconselha a que sejam desmarcados os compromissos para essa noite. São menos de duas da tarde, ainda.
Nas seis horas seguintes, fumamos todos os cigarros que queremos e Ria mostra-nos as mantas e as almofadas de que podemos vir a precisar se quisermos manter o corpo quente depois de tantas horas sentados.
Não nos mostra imagens chocantes, não nos fala dos malefícios do tabaco e muito menos aborda a perspectiva da saúde ou da falta dela se fumarmos durante muito tempo. Antes, aborda a questão pela perspectiva do hábito e não do vício. Fala do mito que é acharmos que temos, ou não, força de vontade para deixar de fumar. Dos mitos à volta da ansiedade que nos provoca a privação da nicotina, da inverdade que há à volta da falta de calma que sentimos quando não fumamos.

“Ai o meu rico dinheirinho”

Passei a tarde a olhá-la, desconfiada, com quem ainda não acredita que algumas daquelas coisas vá dar certo. E olhávamos uns para os outros, tia de Cascais incluída, a tentar duvidar do que ia acontecer.
Contam-se histórias de episódios ridículos que todos passámos por causa do cigarro, enquanto se segura entro os dedos o papel incandescente que se consome e que nos consome, indirectamente.
Três horas depois, paramos para lanchar. Temos todos as costas a doer, o corpo cansado pela posição, mas não temos nenhum problema em nos sentarmos de novo para “atacar” as bandejas cheias de bolos, sandes e afins e os chás, cafés e sumos que nos esperam.
Voltamos à sala, para mais duas horas de conversa. Percebemos, cada vez mais, porque é que fumamos. Percebemos, cada vez mais, que nunca nos apercebemos que não fumamos por vício, mas sim por hábito. E continuamos ali, de cinzeiro na mesinha do lado, de pés no banquinho e…. de cigarro na mão.
Quando faltam quinze minutos para as oito, Ria olha para mim e diz que aquele será o meu penúltimo cigarro. Não consigo dizer uma única palavra. Parece-me que a notícia me choca, parece-me que, de certo modo, estou assustada. A holandesa continua a contar piadas, acho mesmo que só ela é que acha graça ao luto que todos vamos fazer.

Venha de lá o último cigarro

Às 20 horas, olha para o relógio e diz-nos para acender o último cigarro das nossas vidas. Olhamos todos uns para os outros, fazemos quase mecanicamente o que Ria diz e saboreamos o último cigarro. O engraçado é que temos consciência do que estamos a fazer, sabemos que a partir dali (e isso garantem-nos quase a cem por cento), o nosso caminho será feito sem fumo.
Olhamos uma vez mais uns para os outros. Como fizemos durante toda tarde, de resto.
Nunca mais os vi, mas lembro-me de todos termo-nos despedido com a sensação de que seríamos cúmplices durante toda vida de um momento que guardaremos sempre. Como dizia a Ria: “Lembrem-se que no dia 29 de Setembro, às 20 horas, em Leça da Palmeira, fumaram o vosso último cigarro”. Por acaso, ou talvez não, nunca mais me esqueci. Da mesma forma que nunca mais me lembrei de fumar……